terça-feira, 30 de setembro de 2008

Guerrilha Aberta diz: "A moda está fora de moda!"

Dia 30 de setembro de 2008, está no ar a mais nova edição da Guerrilha Aberta, a décima sexta edição da revista eletrônica que aos poucos vai ganhando mais fãs e vai consequentemente vai estreitando relações com o seu público, que continua de certa forma uma dúvida, mais se alastra cada vez mais a todo o Brasil. Parafraseando Ronnie Von, quando lhe perguntaram sobre o que ele achava sobre a moda, ele responde: "A moda? A moda está fora de moda!".

E assim começando definitvamente mais uma edição no ar, com a entrevista com o palhaço Protocolo e com uma estréia da Coluna: "Você é o que você veste", com a jornalista Ana Cristina Braga, que vai escrever sobre moda e comportamente. Nessa primeira coluna traz um pequeno ensaio de moda, comparando ao filme: "Ritmo dos Sonhos". Gostaria que todos a recebessem bem, pois ela veio para somar com a idéia da revista.

Ainda em clima de estréia. A Guerrilha Aberta resolveu abrir um espaço definitivo para novos literários e não literários exporem seus trabalhos autoriais relacionadas a literatura (Prosa e Verso). Para quem sabe, não dê uma vontade de participar. Estreando temos o texto: "
I Panemabatida - cabocami(H)napraia", do jornalista Rod Brito. Vale ressaltar que a coluna ainda não tem nome, então por isso estou aceitando sugestões para o nome da nova coluna que trará sempre novos textos de autores, assim como novos textos. Mandem bala!

Ainda com nossos colunistas, na coluna Galhofa, Leo Carnevale traz o sexto episódio da novela Sorrub e Oileruá e o nosso Dr. Boêmia traz uma linda história sobre Nelson Cavaquinho. Marlene Querubim, em sua coluna Circo Poesia, por sua vez, traz um breve relato sobre o retorno do seu filho: Peterson Luiz Jardim, o palhaço "Pepe", que retornou de viagem de trabalho ao seu circo em São Paulo.

Começando por fim, nossa AGENDA, para a primeira quinzena de outubro. Trazemos novidades na área da Tijuca, como o espetáculo infantil "Maria Eugênia", da Cia do Gesto que estará todo sábado e domingo, no Teatro Ziembiski. Agora, se você gosta de curtir um espetáculo no meio de semana, pode conferir o trabalho da Cia A TROUPP PAS D’ARGENT, que está com o espetáculo "Cidade das Donzelas", no Espaço Cultural Marista.

E para quem busca formação, não pode perder a oportunidade da oficina de rádio lugar com Romano que será realizada no SESC Tijuca, toda quinta-feira de 18 às 21h, com entrada franca e se você tem algum trabalho artístico próprio que queira divulgar, aparecer ou testar com o público, compareça até o Redemoinho Artístico também no SESC Tijuca, toda sexta-feira de 17 às 20 horas e mostre seu trabalho para participar do evento mensal AMOSTRA GRÁTIS, que reúne diversas artes em um único dia de evento.

Finalizando nessa edição, na seção Download: o Ministério da Educação e o Governo Federal em uma ação inédita disponibilizou toda obra do Machado de Assis, em comemoração ao centenário da morte do escritor e fundador da Academia Brasileira de Letras. Tomara que isso seja incentivado e outros escritores também sigam o mesmo caminho. Viva a Cultura Brasileira!

Boa leitura!
Do seu editor,

Entrevista com o palhaço Protocolo

O entrevistado dessa edição, se define como: "um amante de purê de batatas com feijão da Zezé, viciado em café e pão com ovo". Além disso, é palhaço, ator, artesão, produtor, professor, brincante do Boi Muleque Garboso e paralelo a tudo isso, ainda é marido, filho, irmão, padrinho e recentemente curtiu o seu primeiro dia dos pais. Estamos falando em outras palavras do palhaço Protocolo.
Com vocês: Ricardo Gadelha!


Guerrilha Aberta: Quando você começa a se dedicar a palhaçaria? E como nasce seu palhaço "Protocolo Sujis"?
Ricardo Gadelha: Meu trabalho como palhaço se inicia, e se fundamenta até hoje, a partir de saídas as ruas para improvisação e pesquisa em contato direto com o público. Em seguida, passei a procurar cursos e oficinas com mestres do riso, como : Marcio Libar, Leris Colombaione (Itália), Chacovachi (Argentina), Yeda Dantas, Palhaço Bicudo / Sergio Bustamante, Ana Luisa Cardoso, Itaércio Rocha, Mestre Zé de Vina (mamulengueiro).

O Sujis “nasceu” bem cedo, logo no início. Durante minhas saídas improvisava muito com os moradores de rua. O Sujis era aquele mindingo feliz que conseguia ver o lúdico no meio do desgaste da cidade. De uns tempos pra cá, o palhaço deu uma alinhada, a roupa ficou sem rasgos, a maquiagem mais clássica, passei a querer ter um produto, um número, um espetáculo ao invés de só improvisar livremente na rua. E passei a adotar o nome de Protocolo (que me foi dado por Yeda Dantas).


GA: Quando foi que você percebeu que seu palhaço era uma espécie de vagabundo que adora sujar lugares limpos para depois limpa-lo? Seria uma espécie de querer sempre se sentir útil no mundo? Ou alguma outra coisa?
Gadelha: Foi quando iniciei a montagem do meu número A Faxina. No início, tinha apenas uma brincadeira de deixar cair um objeto, e quando ia pegar este, deixava um outro cair. Uma gag clássica que vi o Bicudo fazendo no “Bicudo For Ever”, um espetáculo MUITO BOM deste palhaço-mímico-bufão-louco de pedra. Daí o Marcio (Libar) assistiu o número e orientou. Ele disse algo mais ou menos assim: “Isso, todo mundo já viu. Tu tem que fazer de um jeito que só você faria... E tem que pensar em cena. O público tem que acreditar que o palhaço está tentando acertar, tentando achar soluções, e não só deixando os objetos caírem”. Sou extremamente grato a ele por isso. Depois desse dia criei um monte de cascatinhas, gag´s e jogos com os objetos da Faxina (balde, vassoura, pá, espanador, lenço, burrifador de água) onde a lógica é arrumar, mas uma arrumação submetida a falta de inteligência e destreza próprias ao palhaço. O cara é super solícito, quer deixar tudo na maior ordem, mas sua debilidade cisma em prevalecer.


GA: Hoje, você já desenvolve um trabalho artístico em escolas públicas com crianças, além de ter feito parte da Cia de Mysterios e Novidades. Como você poderia dizer que se dá o desenvolvimento artístico no Brasil, mais especificadamente, no Rio de Janeiro? Até que o artista comece a viver do seu oficio?
Gadelha: Rapaz,....essa é a pergunta que a gente tem que responder todo dia, né? Hoje, “gracias a la vida, que me há dado tanto...”, posso dizer, orgulhoso, que vivo do meu ofício. O trabalho com educação é muito estimulante pra mim como uma forma reprocessar tudo que aprendi e que aprendo segundo meu ponto de vista, minha metodologia. É também uma oportunidade de experimentar o lugar do diretor, que me é extremamente novo e ao qual nunca busquei como artista, mas como professor de teatro, tenho sempre a demanda da famosa peça-de-fim-de-ano. Além de trazer uma remuneração mais fixa do que temporadas, espetáculos ou chapéu.

Como artista, acho que tem aquela fase em que a gente praticamente paga pra trabalhar. Tá começando, se junta com uma galera que pensa parecido, pesquisa, experimenta, se envolve em duzentas coisas ao mesmo tempo, quase não faz grana com o trabalho, mas ama e se sente teatreiro. Acho que é nessa fase que a gente descobre se fez a escolha certa. Aos poucos, das duzentas coisas diferentes que você faz, a pessoa vai focando naquelas que mais te realizam esteticamente. É sobre essas que tu passa a estudar, pesquisar, experimentar, buscar grupos, espetáculos, informações, etc. Ao mesmo tempo que tenta achar saídas de financiar sua vida e vender sua arte. E aí eu volto ao início desta resposta: é todo dia regando a plantinha. Buscando parcerias, patrocínios, escrevendo projetos, participando dos editais, trocando idéia com os grupos e cias que se sustentam, dando aula, trabalhando em trabalhos “normais”. Brecht já dizia: “Primeiro o estômago, depois a moral”. Acredito que assim, investindo no seu sonho artístico e na sua sustentabilidade como trabalhador de cultura o artista passa a viver de seu ofício (eu espero....).


GA: Há algum tempo atrás, numa das edições do Festival Internacional de Palhaços - Anjos do Picadeiro, rolou uma pergunta: "Bom palhaço já nasce feito?" E eu queria que você respondesse essa pergunta:
Gadelha:
Tem de tudo nessa vida. Eu acredito que sempre há por trás da história de um grande palhaço um intenso período de formação e treinamento, seja através da observação e transmissão de conhecimento entre gerações (família circenses tradicionais), ou por oficina e pesquisa prática e teórica, ou por outros meios, sei lá. Mas penso que a arte do riso exige uma precisão e disponibilidade que, acho eu, não é inata e sim, adquirida na labuta, no fazer. Chacovachi, que é um grande mestre palhaço de rua, diria que é uma questão de horas de vôo. Quanto mais a gente voa, melhor voa.


GA: O que é ser artista no Brasil?
Gadelha:
Eu resumiria em uma frase do Napão (Henrique Stroeter) do Parlapatões: - “Enquanto tiver bambu, flexa neles!”

Antes de acabar gostaria de fazer meu merchandaising... Pode? Lá vai:
Visitem meu site, na web: www.palhacogadelha.blogspot.com e contato para apresentações, troca de informações, etc: palhacoprotocolo@gmail.com .

Valeu Vinicius, parabéns aí pelo sucesso da Guerrilha, obrigado pelo convite, é uma honra colaborar para a promoção da arte popular e do ofício do palhaço. Disponha, viu?

Abração, Gadelha.

Você veste o que você é: Moda no ritmo dos sonhos

Moda no ritmo dos sonhos
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Ana Cristina Braga


Para falar de moda das ruas do Rio de Janeiro e São Paulo, nada mais apropriado que comparar com o ritmo alucinante e quente de “ – No ritmo dos sonhos". Um filme estrelado por Jessica Alba que narra a história de uma coreógrafa, menina simples nascida e criada num bairro barra pesada moldado pelas drogas e pela criminalidade.

Embalado por músicas que dão vontade de levantar do sofá e dançar, o filme mostra pessoas simples de um lado e outras que ostentam o glamour do lado oposto da cidade. Ao fundo ruas de bairro são molduradas pela arquitetura moderna e dinâmica de Nova Iorque.

É mais ou menos o que acontece aqui no Rio e em Sampa. De um lado os bairros com jeito simples e familiares, tentando sobreviver todos os dias a violência, e no centro da cidade a agitação da vida empresarial.

A moda é simples, confortável, irreverente e conceitual. É aquela que mostra a cara, enfrenta a vida de peito aberto e diz a que veio. Moda com personalidade é provocante a
ponto de deixar a marca registrada por onde anda.

Assim é o Rio e assim é Sampa, de um lado a moda despojada, do outro o glamour dos grandes centros urbanos. De que lado você está?

Mas o que a moda de rua senão a representação da personalidade da pessoa e do jeito dela ver o mundo? Por isto não importa onde você está e sim o que você é e como demonstra isto. Despojado, glamoroso, irreverente, conceitual, elegante, chique. Os moldes são muitos, mas você é um só. Escolha como quer ser visto e fique bem em qualquer cenário.

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Quem é Ana Cristina Braga?

Ana Cristina Braga é Jornalista (MTB 28994/RJ) e uma mulher dedicada ao seu trabalho e família. Sempre ligada com projetos que envolvam juventude e crianças, ela escreverá sobre moda e comportamento em sua coluna: "Você veste o que você é"

Novos Literários: I Panemabatida - cabocami(H)napraia - Rod Brito

I Panemabatida
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Rod Brito
Está bem. Não se preocupe. Está sol, maravilhoso. Nuanças mil. Praiona é apelido: paiol de odores. A parafina estoura só em quem sabe. E o frescobol resolveu que passa nem perto hoje. Beleza.

Tudo melhor do que nunca. O refresco ideal é de fechar os olhos, de fazer suar, pra não pedir outro copinho – melhor do que nunca. Ai, por favor...

Opa! Uma bolinha bateu na minha cara ou no peito da menina fazedora de cálculos na canga? Porra! Em mim! Não, nela! Por favor, em mim não, nos cálculos dela... Mas se estou de recuperação, o que faço eu por aqui e agora... Pensando bem estou, senão em casa, na casa do Luizinho, que é ele sempre mais apresentável quando se fala em praia, quando se junta ao lugar uma pessoa, o rei por aqui, folgazão que é... Ou não. Tá bom. Já que fiz umas tantas merdas na vida, nos jornais não passei dos soduko, e a praia sempre foi o spa de reflexão mais adequado, que o seja também agora. Eu sou o rei da praia; não quero é estudar, jeito nenhum... Tivesse tabuada impressa também faria. Coisa nenhuma. Disfarço o disfarce.

Ai, ai, ai, calorão. Calorão ou calorzão? Ai, ai, ai; e uma reforma da natureza àquele monstrinho de bruços na areia já não me retiraria mais cedo, por indigestão. No que estou quase vomitando. Quando foi isso? Nem cabe agora me retratar com ela. Hoje não. Já passou tanto de tempo. É, é, é. Oi Jujuzinha... ou Vanessinha... ou sabe lá qualzinha. É. Sou eu mesmo quem está acenando pravocê. Tudo bem? Quanto tempo, né... Não me preocupo.

Está sol, está bem, maravilhoso. Espreguiçando agora o comprimento, descompromissando geral, corpo todo, corpo-loco. Não é coco-loco. Me dá um; se abaixa que eu não me levanto, ora bolas, se achando o quê! Ainda tenho troco, surpresa. Não se preocupe que eu não me preocupo. Hoje, eu, introspect puro, ladrão de silêncios. Hoje não tem mesmo a quem eu e você diga, digamos: – Tá bom, é a mais indesejada verdade, mas ontem eu bebi mesmo, um porre, além da conta. Agora estou mal, que não conseguiria nem levantar da cama hoje, não fosse a minha praia, olhar os mais lindos corpos, torcer o nariz a quem se acha mais esculpido do que eu. Hoje vim curtir ressaca na praia e não há mal nisso. É só não querer transigir pegando latinha pra retomar os serviços de bordo, o provador de birras, a quem chegar perto – pior é que praia é um montão de gente perto. Nossa; sou eu isso tudo mesmo. Não. Nada disso! Seria querer furar as ondas com tonteira e achar saco plástico que o porco arredio de si jogou logo cedo no mar. E não é que com sol forte na cabeça, inchado ainda de cana, logo cedo, fico até ecológico, ao menos em pensamento! Não tivesse dormindão, até iria numa boa; meu saco até me serviria para esconder a cara, depois de detonado o conteúdo, mas se cinco ou seis biscoitos caídos na areia os tatuís também não terão consciência poluída, mas... Intervalo de uma hora na fritura dos miolos; faço parecido, mas sem saco. Pensar já faz mal à minha própria natureza, reagindo, quase querendo verde, verde total, verde geral, pela boca. Ai, ai, ai; disfarço, engulo em seco. Melhor dormir. Ou seja, apagar.
E você; não me fica aí de olhos fuzilantes, sabe lá qualzinha você é, por indigestão...

Rod Brittto – 2007, Rio de Janeiro / Brasil. Da série “Cabocami(H)napraia”.

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Coluna é voltada para trazer novos autores literários. Em toda nova edição , traz um novo autor com linguagens diferentes. A coluna está a procura de um nome. Se você tem sugestões de nomes, deixe aqui seu comentário, quem sabe na próxima edição o seu nome seja escolhido.

Galhofa: Sorrub e Oileruá - CAP. VI

Sorrub e Oileruá

Um história de Amor entre um dissoluto perdulário e sua sobejante bucelária!
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VI

Sorrub depois de formado na Academia, cursou as letras, saiu em viajem pelo país. Dizia que tinha que conhecer o pai. Sorrub não era dado a lamentações. Foi sempre um aventureiro subia e descia pelas cercanias, ao vento, em busca de composições.

Um dia resolveu: ‘Vou partir!’

Mama Paroara não soube o que falar, sabia que de alguma forma isso aconteceria, apoiou o pequeno.

As serralheiras do conventilho também sentiram muito essa despedida. Sorrub aprenderá um pouco de tudo com todas. Jaqueline foi talvez a que mas sentiu. ‘Parte?’ ‘Sim.’ ‘Volta?’ ‘Espero.’

Tomou das roupas em uma mochila, do violão, um dinheiro que havia guardado. Mama Paroara deu-lhe mais algum. ‘Não precisa’, ‘Se não precisa-se não tava dando’. Guardou o dinheiro. Com ternura olhou a mãe, as meninas, o Alcouce, e partiu.

Sorrub queria ir para toda parte. Por dentro e por fora. Foi ver o mar primeiro.

Pegou um ônibus que o leva-se para o mar, e assim foi.

Sentou-se ao fundo. Pois a mochila no chão. Empunhou o violão e ficou sussurrando cantos. Logo sentiu saudades da mama, das meninas do alcouce. Sorriu. Tocou um acalanto e adormeceu.

Acordou com a aura do mar. Desceu do ônibus, esticou o corpo, pois a mochila nas costas, violão, e foi para a rua atrás do cheiro. Estava na zona portuária e o mar tinha um corpulento aroma de peixe. Atravessou a rua e caminhou em direção a fragrância que sentia bem perto. Na mureta olhou de longe em longe, cheirou, ouvia as batidas das águas. Nascia um novo mundo.

Tinha sede. No bar que entrou foi logo olhado. Atravessou até o balcão. Pediu a benção a São Jorge no meio das garrafas de cachaça. Pediu uma “benta” de um gole. Como também estava com fome e a maniva era forte nestas paragens comeu com carne-seca. Sentado numa mesa com azeite e uma birra. Refestelou-se com a maniva amanteigada.

Uma ruiva que de longe o observava muito, sorriu, chegou perto da mesa segurando a cadeira querendo sentar. Sorrub consentiu com a cabeça. ‘De fora?” Mas uma vez apenas balançou o tino. ‘Tá atrás de diversão?’ ‘E de trabalho.’ Completou Sorrub.

Berenice acordava se espreguiçando no corpo só uma frase “noite porreta”.

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Quem é Leo Carnevale?

Ator, palhaço, diretor, escritor e colunista. Leo Carnevale desenvolve seu espetáculo "Pulitrica" pelas ruas, praças e onde for bem vindo seu Palhaço Afonso Xodó. Há algum tempo, está desenvolvendo sua capacidade literária voltada ao humor, ao teatro e a palhaçaria, aqui apresentada como Galhofa.

Dr. Boêmia: Do cavaquinho ao violão: um andarilho na boemia musical...

Do cavaquinho ao violão: um andarilho na boemia musical... ___________________________________________________
Luiz Manhães

Nélson Antônio da Silva nasceu em 29 de outubro de 1911, no Rio de Janeiro, de família de trabalhadores pobres: a mãe, dona de casa que defendia alguns trocados como lavadeira; o pai, músico, tocador de tuba, na Banda da Polícia Militar. Já em sua infância, por força de constantes mudanças de endereço a que era obrigada a família para fugir dos aumentos de aluguéis, conheceu diversos bairros, morando na rua Mariz e Barros, entre a Tijuca e a Praça da Bandeira; na Lapa, no Centro; no subúrbio de Ricardo de Albuquerque, bairro da zona oeste, na linha da estrada de ferro; e na Gávea, zona sul carioca, já adolescente. Foi ali, naquele bairro de grande concentração operária, na época, que se aproximou mais estreitamente da música, ouvindo e acompanhando os conjuntos de música que por lá se apresentavam, principalmente "chorões", reunindo flauta, cavaquinho e violão nas patuscadas e comezainas d'então... Seu primeiro instrumento musical foi o cavaquinho que inspirou seu apelido: ainda criança, construiu um, bem simples, com uma caixa de charutos e cordas de arame, para acompanhar um tio que tocava violino, e que ia aos domingos à sua casa. Mais tarde, ganharia um cavaquinho de verdade, presente de um jardineiro português condoído por vê-lo tocar nos instrumentos dos outros. Instrução, o menino teve pouca: cumpriu apenas até o terceiro ano primário, quando morava na Lapa, próximo do quartel onde o pai trabalhava, na rua Evaristo da Veiga. Saiu da escola para trabalhar, ajudando no sustento da família.

José Novaes, em seu livro "Nélson Cavaquinho: Luto e Melancolia na MPB", nos conta uma história interessante sobre a produção na boemia. A situação é descrita por Guilherme de Brito, em entrevista gravada: vinha ele de uma festa em Niterói, tarde da noite. Na Praça XV, ao lado da Estação das Barcas, senta no bar, tomando uma cerveja, e faz a letra da primeira parte. Entrega a Nélson Cavaquinho, que faz a segunda parte da letra e põe a música.


A FLOR E O ESPINHO

(Nélson Cavaquinho/Guilherme de Brito/Alcides Caminha)


Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor

Hoje pra você eu sou espinho

Espinho não machuca a flor

Eu só errei quando juntei minh'alma à sua

O sol não pode viver perto da lua

É no espelho que eu vejo a minha mágoa

A minha dor e os meus olhos rasos d'água

Eu na sua vida já fui uma flor

Hoje sou espinho em seu amor



Aos 21 anos, Nélson Cavaquinho casa-se com Alice, mas continua o boêmio que já era. Após o nascimento de seu terceiro filho, os amigos de seu pai arrumam-lhe um emprego. Homem casado, pai de três filhos, com responsabilidades, não podia levar a vida que levava. Nélson Antônio da Silva, já conhecido como Nélson (do) Cavaquinho, vai ser cavalariano da Força Pública. Sua função era patrulhar os botecos dos morros, o que, é claro, unia o útil ao agradável, para ele. Deixava o cavalo amarrado diante dos bares e entrava para puxar um samba e conhecer os bambas: Cartola, Carlos Cachaça e Zé com Fome (o futuro Zé da Zilda). Boa parte de sua vida de cavalariano da PM passou na prisão militar: não se importava, parece, pois aproveitava para compor músicas. Depois de sete anos de casamento, sua mulher morre. Nélson desliga-se da Força Pública e vai viver de e para a música. Aí, solidifica-se uma história, a do Nélson Cavaquinho boêmio, "irresponsável", cantor da perda e da morte, da melancolia e da dor.

DEGRAUS DA VIDA

(Nélson Cavaquinho/César Brasil/Antonio Braga)


Sei que estou
No último degrau da vida, meu amor

Já estou envelhecido, acabado
Por isso muito eu tenho chorado

Eu não posso esquecer o meu passado

Foram-se os meus vinte anos de idade

Já vai muito longe a minha mocidade

Sinto uma lágrima rolar sobre o meu rosto

É tão grande o meu desgosto


A aproximação de Nélson Cavaquinho à categoria de malandragem, na análise de José Novaes, é bem nítida, por dois ângulos: o homem, boêmio de todas as madrugadas, e a obra, de uma beleza e luminosidade que escancaram os mais depressivos e escondidos dos sentimentos humanos
. A "filosofia desencantada" incorporada num homem "sem lei e sem felicidade", a dissimulação "para aparentar felicidade" estão presentes na obra de Nélson Cavaquinho e, de modo insistente, a melancolia e a dor ali fazem sua morada.

Era notória sua capacidade de se perder (para os outros) na cidade do Rio; conhecia e freqüentava as mais estranhas bibocas desconhecidas nos subúrbios, além dos pontos mais conhecidos no centro – como o Bar Amarelinho – ou na Zona Sul, que freqüentou durante algum tempo, assiduamente, por conta das apresentações no Teatro Opinião. Sua resistência à fadiga, ao sono, à fome, era fantástica: podia passar dois, três, quatro dias perambulando pela cidade, dormindo aqui e ali, algumas poucas horas, às vezes simplesmente deitando a cabeça nos braços cruzados em cima da mesa do bar, por meia ou uma hora e logo a levantando, pedindo uma cerveja, reempunhando o violão para continuar. Ao voltar para casa, após uma dessas prolongadas boêmias, ficava "de molho" outros tantos dias, só comendo e dormindo – comidas pesadas, como feijoadas, de que gostava muito -, preparando-se para a próxima saída.

Muitas vezes, a roda era de amigos e conhecidos; mas, mesmo que boa parte ou todos fossem desconhecidos, Nélson fazia questão de "dar as cartas". Dominava o ambiente, contava histórias e "causos", cantava suas músicas, enfim: não dava lugar para ninguém. Quando sentia que estava deixando de ser o centro das atenções, dava um jeito de recuperar o lugar perdido: pegava o violão e começava a cantar uma música, por exemplo. Era muito vaidoso; trazia sempre um lenço, conta Beth Carvalho, muito perfumado, que tirava às vezes do bolso e ajeitava, para que sentissem o odor que dele exalava. Era muito ciente de sua obra, e da importância e lugar dela na música popular brasileira: só tocava suas músicas, embora conhecesse as de outros compositores, mesmo novos. Talvez aí houvesse o objetivo de divulgá-las, mas também uma maneira de demonstrar que, mesmo bebendo todas, era capaz de mostrar sua arte.


MINHAS MADRUGADAS

(Candeia e Paulinho da Viola)


Vou pelas minhas madrugadas a cantar
Esquecer o que passou

Trago a face marcada

Cada ruga no meu rosto

Simboliza um desgosto

Quero encontrar em vão o que perdi

Só resta saudade, não tenho paz

E a mocidade que não volta mais

Quantos lábios beijei

Quantas mãos afaguei

Só restou saudade no meu coração

Hoje fitando o espelho
Eu vi meus olhos vermelhos
Compreendi que a vida que eu

Vivi foi ilusão...Vou pelas minhas madrugadas a cantar...



Nélson Cavaquinho, poeta sabedor de que as coisas estão no mundo, vivia em total afastamento quanto aos esquemas organizados de produção, divulgação e garantia de propriedade das músicas. Quantos sambas Nélson compôs? José Novaes arrisca um número, "perto de 800, dos quais grande parte está perdida, ou esquecida, ou não foi gravada, ou..." Novaes ainda pergunta: quantas de suas músicas têm como autores de letras os oportunistas que sempre cercam um grande musico, aproveitando-se de sua humildade, inexperiência ou necessidade? O artista sabe disso e não se importa, como ele mesmo diz:

"Não estou reclamando. Era coisa da época, e alguns desses meus 'parceiros' me ajudaram muito nos momentos difíceis e eu dei parceria como forma de retribuir o que haviam feito. César Brasil, por exemplo era gerente de um hotel onde, sempre que estava sem dinheiro, eu dormia sem pagar nada. Naquela época também não existia direito autoral e a música rendia o que o parceiro pagava".

Considerá-lo, no entanto, vítima dos aproveitadores, nem sempre é certo; em certas ocasiões Nélson levou a melhor. Como da vez em que o "parceiro", no dia seguinte, reclamou que esquecera a música que comprara, pois estava muito embriagado na ocasião em que Nélson a compôs, na sua frente, à mesa de um bar, e o compositor respondeu: "Azar o seu, compadre, eu também esqueci tudo" (e, com o dinheiro que lhe rendera a venda, Nélson comeu durante uma semana no bar do China). Ou outra, que nos conta José Novaes:

"Nilton Amaral, também boêmio e compositor, conta que, certa madrugada, fizeram samba em parceria. Alguns dias depois, quando foi à editora para assinar o contrato, já era o 15º co-autor. Nélson havia vendido quatorze parcerias da mesma música"


14 ANOS
(Paulinho da Viola)


Tinha eu catorze anos de idade
Quando meu pai me chamou
Perguntou-me se eu queria
Estudar filosofia, medicina

Ou engenharia

Tinha eu que ser doutor

Mas a minha aspiração

Era ter um violão

Para me tornar sambista

Ele então me aconselhou:

Sambista não tem valor

Nesta terra de doutor

E, seu doutor,

O meu pai tinha razão

Vejo um samba ser vendido

E o sambista esquecido
O seu verdadeiro autor

Eu estou necessitado

Mas meu samba encabulado

Eu não vendo não senhor...


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Quem é Luiz Carlos Manhães?


Professor universitário da UFF, Luiz Carlos Manhães realiza um curso regular: "redes educativas na boemia musical". Sugerindo o nome da coluna como: "boemia musical" ou "Os Boêmios", em homenagem a Anacleto de Medeiros, autor da música gravada pelo Cordão do Boitatá. Entretanto, a coluna ficou como Dr. Boêmia em homenagem ao doutor especializado em boêmia. Viva!

Circo Poesia: Pepe, o palhaço que "fez a América"

Pepe, o palhaço que "fez a América"
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Marlene Querubim


Chegou ao Brasil neste sábado (13/09), Peterson Luiz Jardim, o palhaço "Pepe", que nasceu em 11 de setembro de 1985.

Sua mãe, Marlene Querubin, fundadora do Circo Spacial, escolheu a cidade de São Paulo para nascimento do filho, enquanto o circo excursionava pelo interior.

Peterson passou grande parte de sua infância de cidade em cidade - brincando no picadeiro, observando as performances dos melhores palhaços do Brasil e seguindo os ensinamentos de seu pai, Luiz Claudio Jardim, grande apresentador na época.

Aos 12 anos estreou em Curitiba, e conforme a tradição circense, quem começa naquela cidade e agrada ao público, tem sucesso garantido em qualquer lugar do mundo. E assim foi. Depois de percorrer o país inteiro com o Circo Spacial, em 2002, recebeu o convite para sua primeira temporada na Arábia Saudita. Ficou mais dois anos em cartaz em São Paulo, na Academia Brasileira de Circo, e deu início à Faculdade de Artes Cênicas. Em 2006 recebeu o convite da "Moscow International Show" para excursionar pelos Estados Unidos. Trabalhou também na Companhia "Cirque World" e nos últimos dois meses se apresentou na "Cirque Dreams Pandemonia", no "Foxwoolds Casino".

Aos 22 anos, Pape realizou o sonho de muitos artistas do Brasil e já se apresentou em New York, Las Vegas, Flórida e Los Angeles, encantando a todos com suas performances.

Peterson passará quinze dias com a família no Circo Spacial, em São Paulo, e poderá compartilhar suas experiências com os palhaços Pingolé (seu tio) e Buguinho (seu primo).

Para saber mais sobre o Circo Spacial, acesse: www.spacial.com.br

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Quem é Marlene Olimpia Querubim?

Marlene Querubim é atriz, poetiza e escritora formada em matemática, autora do livro Marketing de Circo e do livro de poesias: Coração na lona. Considerada como uma empresária de circo movida pela paixão. Fundou há 22 anos, o Circo Spacial, da Federação Paranaense de Teatro, da União Brasileira de Circo Itinerante e da Academia Brasileira de Circo.

Espetáculo infantil Maria Eugênia traz dupla de palhaços no Teatro Ziembiski

Durante os finais de semana do mês de outubro, a Cia do Gesto estára em cartaz no Teatro Ziembiski na Tijuca, com o espetáculo infantil: "Maria Eugênia", onde uma dupla de palhaços vagabundos: Tróty e Furingo (Ademir Souza e Tania Gollnick) são dois moradores de rua que dividem o cotidiano em uma relação criativa com o lixo, só que um dos personagens encontra uma perna de manequim e cria uma mulher com sucata. A partir daí uma série de conflitos se desenrola, trazendo à tona as fragilidades e a beleza da natureza humana.

O espetáculo não tem texto, o que segundo a cia do Gesto não exclui a palavra por completo ou mesmo a utilização de sons por parte dos atores. "O espetáculo tem forte apelo visual, como em criações anteriores da Companhia, e está centrado no trabalho do ator como ferramenta para despertar o imaginário infantil", explica Luis Igreja, o diretor da companhia e do espetáculo.

Vale ressaltar que o espetáculo é indicado pelo CEPETIN - Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infanti e é um excelente programa no mês de outubro, para crianças e jovens, como diz Carlos Augusto Nazareth: "Há espetáculos - absolutamente espetaculosos – mas que não são absolutamente teatro e há outros, como Maria Eugênia, que com uma aparente simplicidade, mas uma forte técnica e pesquisa que o sustenta, provoca em seus espectadores todas as funções a que o teatro se propõe: emociona, diverte, critica e faz pensar. Imperdível"

Espetáculo infantil Maria Eugênia da Cia do Gesto
Quando: Sábados e Domingos de outubro às 17 horas
Onde: Teatro Ziembinski (Av. Heitor Beltrão, s/nº - Tijuca)
Ingresso: R$ 12,00 / R$6,00 (meia).
Informações: Tel: 2254-5399 / 2569-9071

Espetáculo Cidade das Donzelas traz histórias

Durante todo o mês de outubro, às segundas e terças às 20h30, a Cia A TROUPP PAS D’ARGENT está com o espetáculo "Cidade das Donzelas", no Centro Cultural Marista, na Tijuca. O espetáculo conta a história de Carolino, que chega na Cidade das Donzelas, localizada no meio do sertão e fica assustado ao ouvir que não existe homem nem mulher bonita e que moças feias ainda matam qualquer um que arrisca se aproximar.

O espetáculo traz cinco moças: feias Orlandina, a xerife fanfarrona; Marcelina, a prostituta rústica; Jorgina, a lavadeira maníaca; Cecilina, religiosa fanática; e Natalina, a gananciosa perspicaz. Todas com o passado manchado por traumas de família, e, devido a esse fado, perpetua por gerações, uma matança desgovernada à todo e qualquer homem ou mulher bonita que lá se atrevem a adentrar.

Cidade das Donzelas da Cia A TROUPP PAS D’ARGENT
Quando: Todas as segundas e terças de outubro às 20h30
Onde: Centro Cultural Marista (Rua Conde de Bonfim, 1067 - Tijuca)
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia)

Oficina gratuita ensina como criar webrádio pela cidade

Durante todas as quintas-feiras de outubro, de 18 às 21 horas, o SESC Tijuca estará recebendo, Romano, mestre em Linguagens Visuais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que está realizando uma oficina gratuita de Rádio Lugar, que se propôe a criação coletiva de uma webrádio a partir da apresentação e discussão de trabalhos de arte sonora e interferências na cidade. A idéia do trabalho é de que o rádio e a webrádio sejam ocupações do espaco sonoro e que podem modificar o paradigma da produção e distribuição de conhecimento no sistema da arte.

A oficina faz parte do projeto Realejo ArtesAndAndo, que todo mês traz profissionais das áreas de Artes Plásticas, que realizam uma série de trabalhos onde são todos apresentados na última quinta-feira do mês, no Amostra Grátis, que o próximo será no dia 30 de outubro. No dia ainda terá a participação do doutor em Artes Visuais da Escola de Belas Artes/ UFRJ, Marcelo Campos, que realizará uma intevenção, chamada "Crítica ao Vivo", a partir das 19h, com entrada franca também.


Rádio para tudo quanto é lado

Quem ainda não conhece o trabalho do Romano, em 2008, ele ganhou o prêmio Projéteis de Arte Contemporânea da Funarte com a performance "S.W.O.L, Sample Way of Life", que é um esfile de moda com roupas fake compradas no camelódromo, realizado com uma apresentação ao vivo de rappers da periferia. Outro trabalho é a mochila sonora "Falante" premiada no Salão de Abril, Fortaleza, e que participou da mostra "Futuro do Presente" no Itaú Cultural, com a curadoria de Agnaldo Farias e Cristiana Tejo. Quem quiser assistir o video desse trabalho e conhecer mais sobre o trabalho do Romano, pode acessar o site:
www.oinusitado.com




Realejo ArtesAndAndo: Oficina de Rádio Lugar com Romano
Quando: 02, 09, 16 e 23/10 de 18h às 21h
Onde: SESC Tijuca. R. Barão de Mesquita, 539.
Inscrições: 3238-2168 / 3238-2076
tijuca.geringonca@sescrio.org.br / patriciaoliveira@sescrio.org.br
Entrada Franca

Redemonho Artístico recebe trabalhos artísticos autoriais

O Projeto Geringonça, do SESC Tijuca realiza toda sexta-feira, de 17 as 20 horas, o encontro chmado Redeminho Artístico, com objetivo de receber trabalhos artísticos, em todas as área artísticas. O Redemoinho é um encontro livre de artes, onde artistas encontram seus pares, numa forma de mostrar e fazer o seu trabalho artístico próprio e autoral.

Os trabalhos artísticos são catalogados e mensalmente, na última sexta-feira de cada mês, esses artistas são convidados para participar de um evento chamado Amostra Grátis, com divulgação, apoio e realização do SESC.

APAREÇAM, MOSTREM SEUS TRABALHOS!

GERINGONÇA - REDEMOINHO ARTÍSTICO
Quando: Toda sexta-feira de 17 às 20 horas
Onde: SESC Tijuca (Rua Barão de Mesquita, 539)
ENTRADA FRANCA

Download: Governo disponibiliza obra completa de Machado de Assis

No mês de setembro, o Governo Federal e o Ministério da Educação disponibilizaram toda obra completa em formato digital do literário e fundador da Acadêmia Brasileira de Letras, Machado de Assis. Todas as obras, divididas em Romance, Conto, Poesia, Crônica, Teatro, Crítica, Tradução e Miscelânea estão na página virtual do Ministério que entrou no ar, no último dia 23 de setembro, assim como videos e informações históricas sobre o escritor.

O projeto foi realizado pela comemoração do entenário da morte do escritor carioca e a coleção digital Machado de Assis é resultado de uma parceria entre o Portal Domínio Público - a biblioteca digital do Ministério da Educação (MEC) - e o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Lingüística (Nupill), da Universidade Federal de Santa Catarina.

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O Creative Commons Brasil disponibiliza opções flexíveis de licenças que garantem proteção e liberdade para artistas e autores. Partindo da idéia de "todos os direitos reservados" do direito autoral tradicional nós a recriamos para transformá-la em "alguns direitos reservados". Para saber mais, assista os videos [1] e [2].

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Guerrilha Aberta realiza primeiro encontro presencial

Hoje é dia 16 de setembro de 2008, e está saindo fresquinho e quentinho (como se o virtual fosse aconchegante mesmo), a décima quinta edição da revista eletrônica Guerrilha Aberta. Começamos em alto estilo, anunciando a todos os interessados e integrantes do Guerrilha Aberta, que além de estar participando do 5o Simpósio Ciência e Arte 2008, estaremos realizando um encontro presencial após a mesa redonda: Tecnologia Social, Ciência e Arte, que acontecerá no próximo dia 18 de setembro, de 14h as 17h, no auditório do Museu da Vida, dentro da Fundação Oswaldo Cruz (Av.Brasil 4365, Manguinhos) COMPAREÇAM TODOS!

Nessa edição, entrevistamos o Palhaço Matraca, que conta como a história de como o cientista social e palhaço se fundem numa história que avançam por dentro do campo das políticas públicas de saúde.

Temos nessa edição ainda, a estréia da Coluna Circo Spacial, com Marlene Querubim, empresária do circo e autora do livro "Marketing de Circo" e do livro de poesias: "Coração na lona", que traz nessa primeira coluna, uma homenagem aos palhaços. Seguindo nossas já tradicionais colunas: o nosso professor, Luiz Manhães, traz em sua coluna Dr. Boêmia a origem da boêmia, segundo Marx e termina em Zé Keti, saindo da Portela. Vamos ao jornalista Mauro Vianna traz uma breve descrição da Velha Guarda da Mangueira, trazendo informações importantes como se fundou e como se faz para fazer parte. Por fim, o produtor cultural Ricardo Loureiro, em sua coluna Estrada55, levanta uma questão: "A letra sobrevive sem a música?" E parti daí, começa a divulgar os artistas independentes pelo Brasil a fora.

Nossa AGENDA, começa trazendo novidades, durante os dias 17, 18 e 19, a Fundação Oswaldo Cruz estará sediando o 5o Simpósio Ciência e Arte 2008. E falando em Ciência e Arte, o pessoal da União Estadual dos Estudantes - UEE/RJ está com inscrições abertas para sua bienal que acontecerá na Lapa, durante os dias 20 a 23 de novembro.

Companhia Circular vai realizar uma série de apresentações do seu espetáculo de palhaçaria de rua: "Bagunçando o Coreto" em várias comunidades do Rio de Janeiro, até o final do mês. Confira a programação de onde eles estarão na revista.

Por fim, na seção Download, disponibiliza o livro: "Além das Redes" de Sérgio Amadeu da Silveira, considerado como um pai do software livre no Brasil e é um dos responsáveis pela implementação de códigos livres no governo Federal.

Espero que gostem dessa mais nova edição!
Quem quiser chegar em nosso encontro na FIOCRUZ, são todos bem vindos!

Do seu editor.

Entrevista com o cientista social e palhaço Matraca

Nesta edição, trouxemos uma entrevista com o cientista social, Marcus Campos, que desenvolve trabalhos na área da saúde. Nascido na cidade de Ipauçu interior de São Paulo, Marcus se auto-define como: "um espírito numa aventura humana, um mutante por natureza, sempre mudando a barba, o cabelo e o bigode", ou carinhosamente conhecido como Palhaço Matraca!


Guerrilha Aberta:. Como surge na sua vida o palhaço e quando nasce o palhaço Matraca?
Palhaço Matraca: Sempre gostei de palhaço, mas o interesse pela prática surge em 2000 no período que fiz o mestrado em saúde coletiva na Unicamp, onde tive a oportunidade de participar do projeto universidade solidaria. No processo seletivo as habilidades extra curriculares tinham mais peso que a formação acadêmica, a equipe se agregou neste espírito artístico com 22 pessoas rumo ao interior de Pernambuco na cidade de Jatobá. O coordenador da expedição, Dr. Celso Costa Lopes também era conhecido como Palhaço Juvenal e naquela terra distante as margens do Rio São Francisco, fui tocado pela Arte da Palhaçaria e pela prática da educação popular materializada no teatro de rua, no dialogo no centro de saúde, no trabalho com DST/AIDS em prostíbulos, nas rodas culturais, na alegria do povo na rua e no riso dos Índios Pankararus. Com estes, aprendi sobre os seres encantados e segundo o Pajé da tribo Seu Manézinho, estar vivo é estar encantado. Quando terminei o mestrado recebi uma proposta para trabalhar na gestão em recursos humanos da FIOCRUZ - Rio de Janeiro, chego na semana do carnaval de 2003 com o objetivo de me tornar Palhaço, mesmo ano que fiz a oficina A Nobre Arte do Palhaço ministrada pelo Palhaço Pobre Star Marcio Libar, e nunca mais parei. O compositor Batone do projeto LIXO EXTRAORDINARIO quem batizou o Palhaço de Matraca, acho que é por que falo pouco.


GA: Você além de palhaço é um cientista social, que desenvolve um trabalho com grupo de pessoas que muitas vezes são invisivéis na sociedade, relacionado a área de saúde e prevenção a doenças. As politicas públicas relacionadas ao setor são suficientes e funcionais?
Matraca: Faço doutorado em Ensino em Biociências e Saúde, na área de ensino não formal, na linha de ciência e arte no Instituto Oswaldo Cruz - Fundação Oswaldo Cruz. A Arte da Palhaçaria é uma ferramenta utilizada na investigação participativa, aqui compreendida como uma tecnologia social pró ativa na Promoção da Saúde e Alegria. A pesquisa não é voltada para a prevenção de doenças apenas, mas para a promoção da saúde, estratégia central do sistema única de saúde (SUS) para a melhoria da qualidade de vida da população. As condições de trabalho, de moradia, de alimentação, do meio ambiente, do lazer, da gestão participativa, das políticas públicas e da Alegria, determinam nossa maior ou menor saúde tanto individual, como coletivamente. Neste sentido as políticas públicas que temos atualmente não são suficientes e só podem ser consideradas eficazes se foram pensadas coletivamente com quem realmente participa. Mas se compararmos a 20 anos atrás quando nossa constituição foi formulada, andamos muito no que diz respeito a participação coletiva e popular, temos inúmeros projetos que não são divulgados e estão dando muito certo. Como a construção é coletiva e permanente temos que seguir em frente que atrás vem gente.




GA: E hoje em dia, você se considera mais palhaço ou cientista? Ou para você não tem diferença? Como é que os outros cientistas vêem a ciência sendo tratada com humor. Não deve ter muitos, não é? Teria algum caso para contar?

Matraca:
Se riso fosse algo só de palhaço, desde Aristóteles não teriam tantos pesquisadores investigando o tema. No ciência o campo é novo, mas cresce a cada ano com novos centros de pesquisa como o CASA (Ciência, Arte, Saúde e Alegria) do IOC/FIOCRUZ, que investigam temas relacionados neste campo. A ciência e a arte são campos distintos que dialogam mas intimamente que nos possamos imaginar, existem muitos cientistas que usam a arte no seu universo de trabalho e muitos artistas que utilizam da ciência. Sempre que vou em algum evento cientifico me apresento como Palhaço e veja as reações, depois digo que sou cientista. Eu me considero um pouco dos dois, sou Palhaço no meu dia a dia e um curioso por natureza, principio básico para se pensar ciência, e foi neste espírito que misturei os dois campos, não vejo dicotomia. Ser palhaço possibilitou vivenciar situações como esta: Era dia 10 de dezembro de 2004 – DIA DO PALHAÇO – E lá vai o Palhaço Matraca para a Av. Presidente Vargas, perto da estação Central do Brasil para celebrar seu dia. Falante como nunca o palhaço segue andante pela calçada até o cruzamento que favorecia a passagem dos automóveis tendo que esperar o sinal abrir. Quando olha ao seu lado avista uma jovem senhora com um sorriso singelo e gatuno como é, Matraca pois seus galanteios em ação, se apresentando e oferecendo seu braço para conduzir a transeunte a outra margem do sinal. Ela aceitou e relatou a seguinte história nos trinta segundo que se conta na imagem do homem verde do farol: Eu tive um filho palhaço, ele devia ter quase sua idade, era muito brincalhão e risonho como você, faz quase um ano que ele morreu. Chegando do outro lado da encruzilhada, nossos olhas se cruzaram e o palhaço falou para aquela fortaleza: É uma honra para meu ser poder trazer a lembrança do seu filho, mas os tempos são outros e apesar de tantos desencontros os encontros acontecem, como o nosso. Os dois se abraçaram, ela o abençoou e seguiram seus caminhos. Este é um exemplo dos diversos que vivo quando coloco o Palhaço Matraca para girar no mundo.


GA: Ainda falando sobre o povo invisível. Em 2006, você realizou um documentário, onde o palhaço Matraca ia com seu sax até os moradores de rua e profissionais do sexo, no bairro da Lapa. O que você tirou como melhor aprendizado desse trabalho? E quais foram os resultados alcançados dentro da área da ciência social?
Matraca: O Palhaço Matraca é personagem que desde 2003 transita em diversos territórios sociais promovendo saúde e alegria, registrados em dois vídeos documentários de cunho antropológico protagonizados por ele: Matraca e o povo invisível e Na Pista. Os dois vídeos fazem parte do projeto de doutorado “Alegria Para Saúde: A Arte da Palhaçaria como Proposta de Tecnologia Social no Sistema Único de Saúde”. Nesta investigação persigo a seguinte pergunta: A arte da palhaçaria tem poder dialógico para comunicar sobre questões de saúde com diferentes públicos? Após um longo trabalho de campo chego à conclusão que a Arte da Palhaçaria é uma tecnologia social com forte potencial dialógico, expresso nos documentários citados. Registramos diálogos vivenciados em que a prática da Palhaçaria subverte e promove uma divertida interação com a população de rua, com moradores e com profissionais do sexo. Sou saxsofonista e a musica é um dos eus cartões de visita, quando saco o instrumento posso promover uma Jam Session em qualquer lugar e situação, abrindo caminho para um conceito que desenvolvo denominado Dialogia do Riso. Ao final da tese, um dos resultados obtidos e que precisamos mais iniciativas voltadas para a promoção da alegria, e que os palhaços deste campo não fiquem apenas nos hospital, mas ocupem os centros de saúde para promovermos alegria nos diversos territórios. O riso é libertador, subverte e burla a ordem das coisas, para que o expectador adorne-se com a arte de rir da sua própria condição, transmutando assim sua realidade.





GA: O que é ser artista no Brasil?

Matraca: Creio que é ter a coragem de Dom Quixote e a ousadia de Macunaíma. Nossos artistas estão entre os melhores do mundo, precisamos nos unir e sair das nossas caixinhas para efetivamente compor política públicas que dialoguem com a educação, ciência e tecnologia, cultura e saúde.


GA: Alguma mensagem?
Matraca:
Saúde, Alegria e Prosperidade.


Visitem:
www.palhacomatraca.com.br

Circo Poesia: Dia do Palhaço no Circo Spacial

Dia do Palhaço no Circo Spacial
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Marlene Querubim


Respeitável público, olhos grudados no centro do picadeiro porque o espetáculo vai começar! Chegou o palhaço, o encantador de corações, a alma do circo.


Que figura é essa de nariz vermelho, sapatos grandes e roupas coloridas que encantada e povoa o imaginário de crianças e adultos? Desengonçado e estúpido ele surge de repente para trazer alegria e (muitas vezes) distrair a platéia durante a troca de cenários. E consegue.
Foto Divulgação - Palhaço Buguinho – Circo Spacial

No dia 10 de dezembro comemora-se no Brasil o Dia do Palhaço. Este dia foi escolhido para homenagear o palhaço Piolim (Abelardo Pinto), que nasceu nessa data no ano de 1897, em Ribeirão Preto (SP) e morreu em 1973.

Os palhaços brasileiros estão entre os melhores do mundo. Como exemplos, temos Pepe Jardim que está excursionando pelos EUA com uma companhia Russa e Marcos de Oliveira Kazuo fazendo parte da equipe do Cirque du Soleil, no espetáculo "Alegria". Mas, aqui no Brasil, a alegria do Circo Spacial é garantida pelos seguintes palhaços que compõe a equipe: Pingolé, Maskarito, Buguinho, Pistolinha e Petecada, e ainda pela palhaça Crispita e palhacinho Mateus, com apenas 10 anos de idade.

No dia 10 de dezembro às 20h30, terá leitura do livro "Corações na Lona", poesias de Marlene Olímpia Querubim, fundadora e diretora do Circo Spacial. O evento, destinado à imprensa e convidados terá performances circenses e contará com a presença de palhaços especialmente convidados.

A homenagem e o carinho do Circo Spacial - através da poesia de Marlene Olímpia Querubim – a todos os palhaços que trabalham nos palcos da vida, nos circos-teatro, circos-rodeio, animando festinhas ou levando alegria e esperança para crianças e adultos em hospitais.


PALHAÇOS
(poesia que integra o livro "Coração na Lona",
de Marlene Olímpia Querubim
)


Em minha direção,
vieram os barulhentos palhaços
roupas largas, sapatos sortidos,
prontos para receber meu abraço,
em saltos e piruetas, com olhar perdido!
Vieram ao meu encontro, que fantasia!
me senti pequena, quanta alegria!
Pingolé de enorme nariz colorido,
alguém segura minha mão?
Há tanta gente, que multidão!
Uma alegria contagiante
invade meu palpitante coração,
com este sonho me torno
uma gigante, valente,
em meu rosto um sorriso estonteante
sigo feliz meu caminho,
imagino em meu futuro distante,
estes lindos palhaços
em meus sonhos delirantes!

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Quem é Marlene Olimpia Querubim?

Marlene Querubim é atriz, poetiza e escritora formada em matemática, autora do livro Marketing de Circo e do livro de poesias: Coração na lona. Considerada como uma empresária de circo movida pela paixão. Fundou há 22 anos, o Circo Spacial, da Federação Paranaense de Teatro, da União Brasileira de Circo Itinerante e da Academia Brasileira de Circo.

Dr. Boêmia: De Karl Marx a Zé Keti: as "barricadas" e a boemia musical

De Karl Marx a Zé Keti: as "barricadas" e a boemia musical
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Luiz Manhães

É no contexto das insurreições na França de meados do século XIX que a boemia aparece nos escritos de Karl Marx:

"Com o processo de formação das conspirações proletárias, surgiu aí a necessidade da divisão do trabalho: os seus participantes se dividiam em conspiradores ocasionais, conspirateurs d'occasion, ou seja, trabalhadores que só praticavam a conjura ao lado de suas demais atividades, só assistiam aos encontros e se mantinham de prontidão para comparecerem, ao comando do chefe, no local de reunião; e em conspiradores profissionais, que dedicavam toda a sua atividade à insurreição e que viviam dela. (...) As circunstâncias da vida dessa classe condicionam já de antemão todo o seu caráter. (...) A sua incerta existência, individualmente dependendo mais do acaso do que de sua atividade, a sua vida irregular, cujas únicas estações fixas são as tabernas dos vendedores de vinho – os rendez-vous dos insurrectos -, seus inevitáveis relacionamentos com tudo quanto é gente equívoca, classificam esses homens naquele círculo de vida que em Paris se chama de la bohème".
(in Walter Benjamin, 1991, p.44-45, editora Ática)

Sobre esses conspiradores, diz Marx que eles são "aqueles que levantam e comandam as primeiras barricadas". Sendo um dos traços permanentes do movimento conspiratório, mais de 4.000 barricadas são erguidas na cidade de Paris em 1848: é que os trabalhadores preferiam a luta no próprio bairro à batalha em campo aberto. Victor Hugo, em Os miseráveis, se refere a essa rede de barricadas, ocultando nas sombras seus ocupantes:

"Um olho que, lá de cima, tivesse olhado para essas sombras amontoadas talvez houvesse topado em diversos pontos com aparições pouco claras, permitindo reconhecer contornos irregulares, a correrem arbitrariamente, perfis de curiosas construções. Nessas ruínas movia-se algo que lembrava luzes. Nesses lugares é que estavam as barricadas".

Desde então, uma das maneiras de praticar a resistência política ou cultural herda, enquanto metáfora, esses mágicos paralelepípedos que se erguem como fortalezas para o alto, como recorda Baudelaire. Para nós, do fundo de quintal ao samba de mesa, é nos bares e botequins de alma carioca que tecemos nossas barricadas musicais.

A relação bar-boêmio é atávica, não muda, tem raízes que marcam uma profunda relação de amizade entre o carioca e o seu canto preferido. A trajetória musical de um grande sambista foi marcada por esta relação. José Flores de Jesus, o Zé Keti, nasceu no bairro de Inhaúma, RJ, em 16 de setembro de 1921. Aos quatro anos de idade, tirava as primeiras notas de uma flauta de folha-de-flandres tecida por suas próprias mãos. Sua mãe, dona Leonor, depois que seu pai morreu, foi trabalhar na fábrica de tecidos em Bangu. Mais ou menos nessa época, receberia o apelido que o acompanharia vida afora. É que a mãe, preocupada em deixá-lo na casa dos outros, todos os dias perguntava para a vizinha: "Como é, o Zé ficou quietinho?" Não demora muito para que a molecada passasse a chamá-lo de Zé Quietinho, Zé Quieto, Zé Queti...Só muito mais tarde, quando decidiu adotar um nome na vida artística, o compositor resolveria escrever com k. "Era uma época em que a letra k no começo do nome estava muito na moda, tinha Kennedy, Kubitschek, Krushev. Estava dando sorte e o Zé passou a escrever o dele com k também", lembrava Dona Leonor.

Em 1939 passou a desfilar na Ala de Compositores da Portela e freqüentava as rodas do Café Nice, que já era o mais importante ponto de encontro dos artistas do Rio de Janeiro. Como todos os sambistas primitivos que o influenciaram – entre eles, Cartola e Nélson Cavaquinho - , Zé Keti compõe pela intuição, melodia e letra nascendo ao mesmo tempo. Eram anotadas em qualquer lugar e depois, com calma, consertadas no que fosse preciso. E, para ele, esse instante de criação era sagrado. Quando a música surgia em sua mente, tudo o mais perdia a importância, até mesmo aquela conversa no bar que provocara aquele estalo musical.

No início dos anos sessenta, entre 1963 e 1965, uma casa velha na rua da Carioca número 53 virou o "Zicartola". O sobrado era um local de resistência aos tempos sóbrios e sombrios que se anunciavam com o golpe militar de abril de 1964, uma de nossas barricadas da boemia musical. Era comandado por dona Zica na cozinha e por Cartola no violão, e Zé Keti lembra: "Fui convidado para ser diretor artístico da casa. Por lá passaram Ataulfo Alves, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus, que começou sua carreira lá, levada pelo Hermínio Belo de Carvalho que a descobriu numa festa da Igreja da Glória, já sessentona. Foi lá, ainda, que surgiram Élton Medeiros e Paulinho da Viola, descobertos por mim. O Paulinho ainda era o Paulo César, aí eu lhe dei o nome de Paulinho da Viola". Também seria no Zicartola que conheceria Nara Leão, que se tornaria intérprete do compositor logo em seu primeiro disco solo (1964), gravando Diz que fui por aí.


DIZ QUE FUI POR AÍ (Zé Keti)

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando um violão debaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
E se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se eu volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói em meu peito me rói
Eu estou na cidade eu estou na favela
Eu estou por aí sempre pensando nela
Se alguém perguntar por mim...

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Quem é Luiz Carlos Manhães?


Professor universitário da UFF, Luiz Carlos Manhães realiza um curso regular: "redes educativas na boemia musical". Sugerindo o nome da coluna como: "boemia musical" ou "Os Boêmios", em homenagem a Anacleto de Medeiros, autor da música gravada pelo Cordão do Boitatá. Entretanto, a coluna ficou como Dr. Boêmia em homenagem ao doutor especializado em boêmia. Viva!